Primeiro dia de aula, dia de alegria! Um dia único de se viver, ainda mais quando se está numa escolha nova, numa cidade onde você só conhece a sua família e um garoto estranho que desenha orquídeas! Não é demais?! Não, não é...
Ao avistar os portões da escola, uma vontade súbita de vomitar percorreu todo o meu corpo. Minha mãe disse que era ansiedade, mas eu digo que é bom senso! Eu não conheço absolutamente ninguém daquela atmosfera. Onde vou me sentar? Com quem falar? Como agir? E se o professor me apresentar na frente de todos como o garoto paulista engraçado? Se ele ler meu sobrenome alto? Contanto que meu apelido não seja Mr. Sushi...
A coordenadora se apresentou na entrada e se ofereceu para mostrar a escola para mim e para a minha mãe, que por um maldito telefonema disse que tinha que correr para o hospital (não, ela não é uma cirurgiã de renome) e ajudar meu pai com um contrato de entrega de flores para pacientes.
A partir daí, minha caminhada foi com a coordenadora que mais parecia uma guia truística. Percorri quadras, bibliotecas, anfiteatros, e até um claustro que não era de se jogar fora. Até que enfim, cheguei em minha nova sala de aula.
Por sorte, ainda não havia ninguém lá. Mas a coordenadora disse que eu poderia esperar o resto da turma ali mesmo, o que foi um alívio. Prefiro receber pragas pelo menos sentado.
Diferentemente do que eu pensei, a turma era extremamente tranquila e possuía uma esmagadora maioria feminina. Fui bem recebido, até melhor do que podia imaginar e percebi que todos já esperavam a minha chegada - As notícias se espalham rápido por aqui.
Até a chegada do professor, todos formaram uma roda envolta de mim, perguntando de tudo um pouco... Porque você veio para o Rio? Como é São Paulo? Seu pai trabalha em que? Qual seu livro favorito? Você usa chapinha? Enfim... Todos, menos um dos poucos garotos da sala. Ele preferiu permanecer no canto, concentrado no livro que segurava nas mãos...
Talvez ele também fosse um novato...
Como o de costume, o primeiro dia foi visivelmente um dia de apresentação e conversa, o que fez o tempo passar rápido (graças aos Céus). Cheguei em casa exausto, mas a imagem do garoto no fundo da sala permanecia em minha cabeça.
Ninguém falou com ele. Porque ele não se manifestou o dia todo?!

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