segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Dia 19 - Miojo e legumes


  Passada a cena shakesperiana no apartamento, Ian insistiu inconformavelmente para que eu passasse aquela noite com ele. Decidiu então ligar para a minha mãe, e com um pouco de charme e galanteio a minha (tão bondosa e inocente) mãe aceitou no ato.
  Tomei a corajosa decisão de ajudar naquela bagunça e em desfazer as numerosas malas. Quando terminamos e toda a casa já estava totalmente arrumada, o que devia ser raro de se acontecer ali, a noite já havia caído e nós dois estavam igualmente mortos de fome. Como um solteiro clássico, a geladeira da casa estava mais vazia que a  de Março pós-Carnaval.
  Fui a um mercado próximo e comprei os ingredientes essenciais para uma janta corrida: miojo e legumes. Tentei usar toda os dotes culinários herdados de meus ancestrais, mas de nada adiantou... Ainda era um miojo com legumes.
  Depois de satisfeitos, vimos filme até bem tarde da noite (um dos motivos de eu não ter postado, culpem ele). Até eu começar a protestar afirmando que havia aula no dia seguinte. Como só havia um quarto e um só colchão, tive que compartilha-lo. Graças aos Céus, nada de incomum aconteceu aquela noite e até que ele se comportou bem. A não ser a parte que ele se mexe demais enquanto dorme.
  A segunda-feira foi pacata. Corri para casa bem cedo e mesmo assim perdi o primeiro tempo de aula. Agora que toda a sala havia se tornado um campo de guerra, eu não tinha muito prazer em frequentar a minha escola. Os únicos seres humanos a quem eu dirigia alguma palavra eram: Francisco, os professores, e a mulher da cantina porque não tem como você conseguir comida sem falar.
  Química, física, matemática e geografia. Acho que a coordenadora gosta de brincar ao escolher as matérias de segunda-feira. Não dormir naquele dia parecia mais difícil que os Doze Trabalhos de Herácles, mas bravamente eu o suportei sem pestanejar.
  Tudo havia corrido bem até na hora da saída. Muitas pessoas ficavam encostadas no muro próximo ao portão, e Alice e sua "gangue" pareciam apreciar aquele hobby.  Ao passar pelo portão, senti que diversos olhares me seguiam pelas costas e ao me virar percebi que um deles era de Alice.
  Ela veio até mim, e com um sorriso amarelo estampado no rosto disse quase sussurrando:
 "Soube que tem um novo amor, Takada... Espero que seus pais saibam que ele é maior de idade, seria bem triste se isso se espalhasse, não é?"
  Saiu andando lentamente, olhando-me nos olhos até onde podia. Quando dei por mim, olhava para a calçada ainda não compreendendo o que havia acontecido. Percebi que todos me olhavam e comecei a andar apressado em direção à minha casa.
  Como... Como ela soube? Eu não contei a ninguém! Ninguém pode saber disso... A não ser... Não, não pode ser ele.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Dia 18 - A casa do biólogo


  Não consegui dormir a noite inteira. Acho que foi Mikage que tem a mania de morder meus dedos do pé. Hoje foi aquele dia em que você acorda e não quer fazer mais nada a não ser voltar para a cama e permanecer nela o dia todo.
  Meus pais foram visitar meus avós que moravam em outro bairro, pelo que me pareceu na Zona Sul. A casa ficava morta sem os dois, andando pela casa, discutindo sobre as necessidades do gato, vendo televisão... Apesar de tudo, eu amo meus pais do jeito que eles são afinal.
  Todos os deveres de casa tinham sido feitos, tinha terminado de ver o último episódio da série que eu estava acompanhando e também tinha terminado de ler o livro que tinha ganhado de presente da minha prima. Era definitivamente um dia morto...
  O Ian vai embora hoje...
  Eu poderia ir me despedir indo na casa dele. Mas ele sequer me avisou, soube pela minha mãe. Talvez ele esteja envergonhado ou arrependido, ou até com medo da minha reação. Acho que não custa nada eu tentar falar com ele, odeio deixar assuntos pela metade.
  Tomei um banho rápido, mudei a minha roupa e deixei comida e uma caixa de areia limpa para Mikage. Após fechar o portão, olhei na direção onde deveria ser a casa dele  e andei até a portaria do prédio. Chamei pelo porteiro e pedi informações sobre Ian, mentindo ser da faculdade (lembrei de o nome de um colega do qual ele havia comentado na loja). Ele chamou pelo interfone e fez sinal para que eu pegasse o elevador.
  Chegando lá, percebi que não sabia o número do apartamento. Mas, para a minha surpresa, uma porta se abriu atrás de mim. Era ele, com uma cara de surpresa, olhando para mim. Por um momento ele permaneceu com os olhos verdes abertos, sem compreender o que se passava. Provavelmente, esperava mesmo que fosse seu amigo da faculdade.
  Passado a surpresa, ele se afastou do caminho e me deu passagem, fazendo um gesto de convite à minha entrada. Quando atravessei o corredor, notei que ele morava sozinho. A casa estava um caos, roupas, livros, comida... Nem parecia que alguém ira viajar naquela tarde.
  "Miguel, sobre semana passada eu..." - ele disse olhando para o chão. 
  Eu o interrompi com um aceno de mão, e expliquei que não havia problema naquilo.  Ele nem ao menos perguntou o porque da minha visita, mas me adiantei e disse que só fui até lá me despedir. Disse também que o intercâmbio era uma coisa ótima, e que isso abria várias portas para o futuro e...
  "Eu só estou indo por sua causa..." - os olhos verdes faiscando sobre mim.
  Fiquei parado, olhando fixamente para ele. Senti todo o meu corpo queimar diante daquele olhar acusador, mas ao mesmo tempo triste. Não sei por qual motivo, mas senti um vazio inesperado em meu peito e todo o chão pareceu se abrir em um imenso buraco negro debaixo de meus pés.
  "Eu... Eu não quero que você vá. Quem vai me ajudar a escolher as flores? A contar o dinheiro do caixa? A me ajudar a fechar aquelas portas de metal... Quem vai... Quem vai estar comigo quando eu preciso?"
  Senti meu rosto quente e molhado... Eu estava chorando. Mas eu não podia chorar, não na frente dele... Eu não posso.
  De um instante para o outro, ele já não estava na porta. Se encontrava na minha frente, e no mesmo instante seus braços me envolviam e eu senti o calor de seu corpo, era reconfortante mas senti que ele tremia. Ele era um pouco maior que eu, um pouco baixo para um universitário. E seu cheiro era bom... Quer dizer, bom para um homem solteiro. Não que eu saiba como é o cheiro dos homens... É que... Argh!
  "Eu sei que isso é errado." - ele disse - "E que todos irão contra isso. Mas eu te amo, Miguel. Mais do que a qualquer pessoa que já amei, quando lhe abraço eu tremo... Porque é muita responsabilidade ter meu mundo todo entre meus braços."
  Naquele momento eu percebi que tudo que eu precisava estava ali, entre aquelas paredes. Em meio a roupas jogadas, livros em pilheiras e rascunhos de desenhos feitos com carvão... O meu amor estava ali, e de nada mais eu precisava.
  Sim, hoje o "post" termina sem perguntas... Não há nada mais o que se questionar nesse mundo.
  

  

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dia 17 - Estados Unidos . . . Porquê?


  Como não havia nada de importante a se fazer hoje, dormi até bem depois do de costume. Acordei pela luz do sol que atravessou as cortinas e brilhou em meu rosto, já era a hora do almoço. Levantei e fui direto para a mesa que já estava sendo posta. Meus pais amam conversar durante as refeições, então aproveitei a minha deixa para levantar e ir para o meu quarto depois de escovar os dentes.
  Me sentei na escrivaninha próxima a janela e comecei a fazer todos os deveres pendentes. O mais novo integrante da família Takada, Mikage, deitou-se ao meu lado e observou por uma tarde inteira os movimentos da caneta no papel, sempre tentando pegá-la com suas pequenas patas.
  Ao final de tudo, já era final de tarde e saí do meu quarto para beber um pouco de água. Pelo meu ver, meu pai tinha saído para cuidar da loja e minha mãe estava na sala lendo uma revista qualquer sobre costura. Ela parou de ler e me observou por um momento, e fez um sinal para que eu me sentasse ao seu lado.
  Conversamos por um bom tempo sobre a escola, como estavam sendo as mudanças e porque eu não tinha saído pra folia no carnaval (como se isso fosse da minha natureza). Até que ela ficou séria e disse: "Miguel, eu vi tudo." Depois de eu perguntar que "tudo" era esse, ela me contou que estava na janela quando o Ian me... Vocês sabem.
  Acho que falamos por quase duas horasaté que inesperadamente ela acrescentou: "Ian é um bom rapaz, conheço a mãe dele a um bom tempo. Foi muita coincidência nos mudarmos para tão perto uma das outras, acho que você não lembra mas você brincava com ele quando pequeno."
  Era verdade, eu sabia que conhecia ele de algum lugar... Agora tudo fazia sentido. De início eu fiquei muito confuso e envergonhado. Quem disse de que eu gostava dele? Quem disse que eu gostava de homens? A minha mãe deve ter algum problema mental grave...
  Quando ela se levantou, me contou por final que Ian estava se mudando para os Estados Unidos para fazer alguma espécie de intercâmbio e estágio. E ia partir amanhã ao final da tarde.
  Amanhã?! Tão cedo... Ele nem se despediu...
  

  

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Dia 16 - Mikage


  O dia de ontem não foi postado, pois ao meu ver não há nada de interessante: ajudar sua mãe a arrumar a casa, fazer os deveres de casa, assistir filmes de drama alugados pelo seu pai sentimental, e comer lasanha para depois ler até dormir.
  Mas o dia de hoje foi diferente, e achei que ele merecia um post. Como algumas pessoas, meu pai decidiu abrir a loja dele após o horário de almoço. E é claro, esse dever sobrou para ninguém menos que eu mesmo.
  Pelo que ouvi Ian havia viajado desde sábado, e eu iria ficar a tarde toda sozinho com toda a diversão de cuidar de flores para mim. O pólen normalmente me fazia espirrar, mas era tanto tempo convivendo com aquelas plantas que meu nariz sossegou. Nada, nenhum cliente...
  Já era de se esperar não é? Quem em sã consciência vai comprar flores numa quarta-feira de cinzas?!
  Quando eu já estava adormecendo no balcão, ouvi a sineta da porta tocar. Entrou então na loja uma garota. Ela era bonita, possuía grandes olhos verdes e uma cabeleira castanha que esvoaçava acompanhando o seu tímido caminhar por entre as flores. Não dirigiu nenhuma palavra a mim, até que se aproximou do ramo de cerejeira e perguntou-me o preço. Eu ainda estava perplexo com sua beleza, e por alguns segundos permaneci observando-a apontar para as flores sem ouvir nenhum som de sua boca.
  Por fim, ela resolveu comprar a de pessegueiro por uma dica minha. Saiu sorrindo e satisfeita, agradecendo e acenando enquanto abria a porta da loja com o pé para aguentar os ramos com as duas mãos.
  Ela era linda...
  Quando estava fechando a loja, encontrei meu pai no caminho de casa. Ele segurava uma caixa com furos redondos, e parecia que estava sussurrava para ela. Tudo bem, meu pai tem muitas coisas estranhas, mas conversar com caixas na rua era novo. Me aproximei e ele disse que havia comprado numa feira perto dali, abriu a caixa e me mostrou o filhote de gato malhado que miava desesperadamente.
  Fomos para casa juntos, e notei que o gato já possuía coleira, caixa de areia, pote de ração e tudo que um felino doméstico necessitava... Menos um nome. Decidi por fim chamá-lo de Mikage, nome de um personagem de um desenho que assisti fazia a tempo. Era um garoto que morreu para o seu amigo viver e renasceu em forma de animal doméstico para nunca se separar do mesmo.
  Quem sabe ele também não vira meu amigo? Num mundo tão confuso desses, quem sabe um gato não seja mais companheiro...


  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dia 15 - A janela


  Quando se chega nessa vida ninguém avisa o que vai lhe acontecer. Ninguém te conta sobre as descobertas da infância, sobre as dúvidas da juventude, as dificuldades da vida adulta, e nem sobre a saudade que ronda a velhice.
  Nada me foi dito sobre o amor, sobre suas reviravoltas, suas alegrias e tristezas. Era apenas Miguel, o pequeno Miguel... Inocente, infantil, sem a mínima noção de vida. Até que então a vida vira de cabeça para baixo e tudo começa a acontecer como dominós que se chocam.
  Nunca me foi dito o quanto a vida não é fácil. Dinheiro, felicidade, amor. Afinal, o que é vida? Qual o sentido dessa existência humana tão frágil e momentânea que nos é dada? Alguns diriam que o correto é enriquecer, outros diriam sobre almas gêmeas, buscar a Deus... São tantos pontos de vista.
  Mas e eu? O que faz Miguel nesse mundo de tropeços e acertos? Nesse ninho de cobras rodeado por seda... A vida não é fácil, ninguém nunca nos disse isso. Mas o que eu queria entender, é porque tudo cai sobre a sua cabeça de uma vez só?
  Lá estava eu, pleno domingo de Carnaval, sentado sobre minha cama observando o mundo passar janela afora. Essa foi definitivamente a semana mais caótica de toda a minha existência. Amigos se tornam inimigos e amigos se tornam pretendentes, o que eu vou fazer quando esse feriado terminar?!
  Acho que só Deus saberia me dar essa resposta. Não sou de cair na folia, e meu humor não vai me deixar aceitar convites para sair. Principalmente de certos estudantes de Biologia que moram aqui perto... Ou de pescadores mirins que moram em uma mansão.
  Seria bem legal se eu tivesse mais amigos por aqui. Os que deixei em Liberdade ainda falam comigo pela internet, mas não é a mesma coisa... E Francisco está viajando. Acho que só me resta fazer meus deveres de casa e esperar esse inferno passar. Quem sabe no final disso tudo, eles venham e digam que foi tudo um grande mal entendido? Pouco provável, mas quem sabe não é?
  Não... O que é que eu vou fazer?!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Dia 14 - As ondas agridem as rochas


  Um dia de sábado é aquele dia em que você quer fazer tudo o que não pode fazer na semana, mas ao mesmo tempo você quer dormir o dia todo. Na maioria das vezes, eu passo meu sábado em casa fazendo os deveres de casa e jogando meus videogames. Mas dessa vez não foi bem assim.
  Acordei tarde, já era mais de meio-dia quando eu dei por mim. Ontem eu tinha ficado até bem tarde no Sushi Bar com o Ian - Ian... Será que aquilo tinha mesmo acontecido?
  Levantei e fui para a mesa da cozinha para tomar meu café-da-manhã. Minha mãe havia saído pra fazer as compras semanais antes que tudo fechasse para o Carnaval, e meu pai estava na mesa lendo o jornal como o de costume. Quando meu viu ele sorriu e disse que queria sair comigo hoje para fazer algo de diferente.
  Afirmando de que não estávamos aproveitando a beleza da cidade como devíamos, ele me convidou para ir pescar com ele depois do almoço. Como eu não tinha nada o que fazer, não pude fugir e acabei aceitando. Eu realmente não vejo graça em segurar um pedaço de pau pra esperar que seres marinhos mordam sua isca e fiquem se debatendo até morrer.
  Depois do almoço, fiquei assistindo alguns filmes que minha mãe tinha alugado em sua ida à rua. Nada demais, só alguns melodramas pra passar o tempo. Quando percebi, já eram quatro da tarde e meu pai já se vestia para a pescaria. Desde que eu o conheço, o ato de se preparar para pescar é como um ritual para ele. Às vezes eu me pergunto se ele acende alguma vela e coloca pétalas de rosas na banheira.
   Se em algum dia eu precisasse de alguma imagem para descrever a palavra "cafona", seria o meu pai vestido para pescar: Chapéu decorado com iscas, camisa branca, botas de borracha pretas, e um macacão verde com um peixe sorrindo bordado.
  Eu realmente tenho que passar por isso?
  Ele ligou o carro e fomos em direção a uma tal "Pedra do Leme", lugar frequentado pelos melhores pescadores, como o meu pai disse. O caminho demorou um pouco pelo trânsito, o que eu gostei. Pelo menos assim eu podia apreciar a paisagem ouvindo minhas músicas.
  Uma hora já havia passado e nenhum sinal de peixe algum. Eu estava sentado em uma cadeira dobrável quase pulando daquela pedra de tanto tédio, foi quando eu o vi. Não, não parecia possível... Mas era ele: Matheus.
  Mas o que ele está fazendo aqui? No mesmo dia, na mesma hora?!
  Tentei me esconder atrás do jornal de meu pai mas já era tarde demais, ele havia me visto.
  "Miguel!" - ele disse - "Não sabia que você gostava de pescar! Mas que coincidência, eu amo pescar!"
  Porque? Porque meu Deus? Porque logo ele? Meu pai nem notou a presença dele, estava concentrado demais na sua pescaria sagrada. Ainda bem, imagina se eles se tornam amigos de pescaria!
  Ele insistiu para que eu fosse com ele ao final da pedra, dizendo que os melhores peixes ficavam naquela parte (aham, peixes). Ficamos um bom tempo em silêncio ao som das ondas se chocando contra as pedras, até que ele disse:
  "Eu sinto muito pelo que aconteceu lá em casa. Eu estava fora de mim, me perdoe. Eu também soube do boato que a Alice criou, mas não liga pra isso! Eu vou dar um jeito quando voltarmos às aulas."
  Fiquei parado olhando para ele por alguns segundos, e notei que ele estava dando o sorriso galanteador de sempre. Virei meu rosto para o mar, e anui com a cabeça. Ele sorriu e completou:
  "Eu falo isso porque... Porque eu te amo Miguel."
  De primeira mão eu não tinha escutado direito, foi quando eu olhei na direção dele. Ele não estava mais sorrindo e se aproximava de mim, eu o empurrei. Ele caiu na areia e eu corri para aonde meu pai estava.
  Ele já estava arrumando as coisas para ir embora, quando me viu. Perguntou aonde eu tinha ido, e eu lhe disse que tinha visto um peixe-espada passando e me distrai. Andamos até o carro, e nenhum sinal de Matheus... No caminho, eu podia ouvir a voz dele repetindo palavra por palavra.
  Ele... me ama?!





Dia 13 - Flauta, incenso, lanternas e sushi . . .


  Em todos os dias da semana, mesmo que eu durma cedo, eu acabo acordando extremamente sonolento e mal consigo tomar meu café-da-manhã. Mas nas sextas-feiras isso é diferente, principalmente na que antecede o feriado do Carnaval. Apesar de eu saber que hoje o dia não seria nada fácil.
  Tenho escola, tenho que ir trabalhar na floricultura, e depois... Sushi Bar.
   O dia na escola não foi tão assustador quanto eu esperava. Alice e o seu clã não levantaram os olhos para a minha pessoa, mas pelo menos havia Francisco para me fazer companhia. 
  Pelo que parecia, Matheus tinha viajado antes mesmo do feriado começar. Não haveria como eu descobrir onde ele tinha ido, até porque as únicas pessoas que possivelmente sabiam não falavam mais comigo... Eu descobri que Alice era uma grande amiga dele desde a infância, mas uma confusão os fez nunca mais se falarem direito.
   Onde será que ele teria ido? Porque ele não falou nada? Espera, porque eu me importo com isso?!
   Na hora da saída, fui direto a um restaurante por quilo na rua ao lado para almoçar rapidamente e depois pegar o ônibus até a floricultura. Por algum motivo que desconheço, estava enjoado demais para comer, mas mesmo assim fiz a comida descer garganta abaixo.
  Chegando na floricultura, Ian já estava no balcão organizando um buquê de rosas, provavelmente uma encomenda. Ele estava organizando rosas brancas, juntamente com flores de sabugueiro e ramos de samambaia. Era impressionante o quanto ele tinha talento para aquilo, pois a mistura tinha ficado impressionantemente linda.
  Quando entrei no estabelecimento, a sineta da porta tocou e ele notou de imediato a minha presença, levantando a sua cabeça rapidamente. Um largo sorriso tomou conta de seu rosto e ele se dirigiu a mim, deixando o buquê por fazer no balcão. Um abraço mais forte que o normal me envolveu e por um momento eu me senti sufocado.
   Contentei-me em dar um boa-tarde entre tosses depois de permanecer alguns segundos sem respirar e fui correspondido com um riso baixo e um cafuné na cabeça. Com o rosto vermelho, andei apressadamente para trocar minhas roupas no fundo da loja.
  Por mais incrível que pareça, o dia-a-dia de uma floricultura não é tão emocionante assim. Mesmo que o seu colega de trabalho seja tão estranho quanto o Ian. Alguns buquês, entregas de bicicleta à lugares próximos, nada demais.
  Fechamos a loja no final da tarde, antes do sol se pôr e nos dirigimos ao restaurante japonês que ficava no final da rua. Chegando lá, ele havia dito que tinha reservado uma mesa ao lado do aquário e lá fomos nós. O lugar era pequeno, mas aconchegante. Uma música suave tocava ao fundo, e podia-se sentir um leve odor de incenso enquanto todo o ambiente era iluminado por lanternas japonesas.
  De repente, percebi que a namorada dele não havia chegado ainda e que nós não tínhamos nem ao menos a buscado. Quando perguntei onde ela estava, ele se limitou a sorrir e dizer:
  "Ela não existe, Miguel. Se eu te chamasse para cá jantar só comigo, eu sabia que você não viria."
  Eu estava de boca aberta, não entendendo mais nada. Parecia que o cenário ao meu redor estava sendo engolido por um buraco negro invisível. O ambiente parecia mais frio, mas logo senti um calor incontrolável se manifestando na pele do meu rosto. Minha cara devia estar extremamente vermelha, pois pude notar um sorriso de satisfação no rosto de Ian.
  A noite correu normalmente depois disso, eu simplesmente fingi que não tinha entendido. Rimos, conversamos, comemos. Foi tudo muito natural, apesar das atuais circunstâncias dissessem que não deveria ser assim.
  Saímos do restaurante quando o gerente nos disse que iriam fechar. Eu estava exausto, e minha barriga era feita de sushi e sashimi. Ele fez questão de me levar até a porta de minha casa, e fui presenteado novamente com outro abraço sufocante.
  Quando estava abrindo o portão com as minhas chaves, senti um puxão em meu pulso, e os degraus de pedra viraram calçada debaixo de meus pés em questão de segundos. Ele estava de pé na minha frente, ainda segurando meu braço. Mas sua cara não estava sorrindo como o de sempre, era um expressão séria.
  Não sei como aquilo aconteceu tão rápido, mas de um momento para o outro os meus lábios estavam ao encontro dos dele. Senti de imediato um calor que percorria todo o meu corpo rapidamente, foi quando ele me abraçou e saiu andando apressado em direção à sua casa.
  Fiquei parado por alguns momentos na rua, olhando para o nada. Tentei entender o que havia acontecido, mas era impossível. Entrei em casa e todos já haviam ido dormir, me joguei na cama e agarrei meus travesseiros.
  O que... Porque... Mas o que foi aquilo?!


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Dia 12 - Corredores . . .


  Sim, eu sei que não postei ontem (e isso é irritante), mas também sei que muitos adolescentes vão concordar que há dias em que se deita na cama da volta da escola e não se acorda mais. Principalmente o dia que me ocorreu ontem.
  Ao chegar na escola senti um ar sombrio pairando no ar da sala, todas as garotas sussurravam e quando notaram a minha presença pararam de imediato e retornaram para seus lugares. Notei que Alice estava entre elas, e podia jurar que vi um sorriso irônico no canto de seu rosto. Matheus não estava lá novamente, mas parecia que elas não iriam responder perguntas vindas de mim.
  Sentei ao lado do único garoto além de mim e de Matheus naquela turma. Nunca tinha falado muito com ele, a não ser para trabalhos em grupos aleatórios que ocorriam com frequência. Seu nome era Francisco e parecia ser uma pessoa extremamente reservada, mas não parecia se importar muito com isso. Diria que ele era até feliz assim. A professora de geografia havia faltado, e a coordenadora decidiu que devíamos revisar a matéria em duplas ou trios.
  Conversamos por toda a manhã e por toda a tarde, e acho sinceramente que arrumei um novo amigo. - Ufa! Finalmente uma alma pura nesse ninho de cobras!
  Enquanto andava pelos corredores, percebi que todos os alunos me olhavam com o canto do olho e alguns até se afastavam em passos apressados. Perguntei à Francisco, se ele sabia de algo que tinha acontecido. E foi então que eu soube...
  Alice havia criado um boato falso sobre a minha pessoa. Agora toda a escola pensava que eu tinha dormido com o Matheus na casa dele! Mas o que?! Qual o problema dessa garota?! Isso com certeza não vai ficar desse jeito...
  Cheguei em casa e quando fui abraçar minha mãe, ela me deu um bilhete. Disse que tinha sido deixado com o porteiro para mim, um tal de Ian... Fui para o meu quarto e abri o papel (como a letra dele é bonita!).
  Era um pequeno recado escrito a mão, me lembrando sobre o encontro de amanhã no Sushi Bar. Ele não pôde se encontrar comigo, pois tinha aula de violão às seis da tarde. - Nossa, eu sempre quis fazer aula de violão!
  Como será a namorada do Ian? Será que ela é bonita? Tem um emprego? é responsável? Será que ela agrada ele? ... Porque eu estou pensando nisso? Eu não tenho nada a ver com ele! Eles tem a vida deles, e eu a minha...
  Será? Será que eu tenho alguma vida?!


  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dia 11 - Não há luz no fim do túnel, nem na escola


  Sem grandes explicações, minha escola estava sem luz hoje e as aulas foram suspensas até o dia de amanhã. Não era um motivo de grande agradecimento, até porque o meu professor de álgebra fez questão de passar dez páginas de exercício como se soubesse o que aconteceria no dia seguinte.
  A notícia só chegou aos meus ouvidos de manhã cedo, e quando soube voltei logo a dormir. Acordei perto da hora do almoço, que foi feito pela minha mãe que não tem dom culinário algum (na maioria das vezes eu que faço a comida nessa casa). Fiz os trabalhos até as quatro da tarde, e por algum motivo ficava lembrando do sorriso do Matheus e do olhar devorador de almas de Alice ao saber do fato.
  Eu... Eu não fiz nada, eu só... Porque ela agiu assim?
  O interfone tocou. Reconheci a voz de Ian de imediato (esse garoto não tem vida?). Ele me deu um boa tarde digno de Rainha dos Baixinhos e pareceu achar aquilo engraçado. Me convidou para ir a um restaurante japonês novo que tinha aberto perto de nossa casa na sexta-feira, mas quando eu ia recusar ele disse que levaria a namorada. - O que? Namorada? Como... Porque... Ele não gos...
  No fim de tudo concordei em ir. Mas eu não poderia ir sozinho, quem eu iria levar? Alice? Fora de cogitação... Porque tudo se complicava quando você mais precisa de ajuda?
  Voltei para o meu quarto e abri o livro na página que havia parado. Não conseguia continuar, algo na minha mente estava completamente perturbado. Mas o que? Não tinha nada demais daquilo, ele era meu amigo e queria me apresentar a namorada dele... A namorada... 
  Porque eu estou me preocupando com isso afinal? Era de se esperar ele ter uma. Ele é inteligente, dedicado, ajuda os pais com o salário, tem boa aparência e... Tem boa aparência?! Porque eu disse isso?! Eu nem reparo nisso... Reparo?! 
  Onde eu estou com a cabeça?! Nós dois somos homens, ele tem uma vida e quem sabe uma futura família. Eu não posso... Eu...
  O que é isso que eu estou sentindo?!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dia 10 - Alice e um mundo sem maravilhas. . .

  
  Sabe quando o pequeno Davi derrotou o gigante Golias naquela famosa passagem bíblica? Bom, eu acho que não é tão desafiador quanto acordar segunda-feira antes do sol raiar para ter aula de matemática depois de um final de semana turbulento e confuso.
  Após passar a aula tentando manter a cabeça erguida, fomos para a sala de pintura. O tema de hoje era um pintor pouco conhecido chamado John William Waterhouse. Suas pinturas possuíam traços suaves e bem definidos que traziam toda uma emoção única para cada quadro, o que me encantou de certa forma - Um desconhecido tão talentoso...
  Para a primeira aula, a professora nos fez o desafio de escolher uma de suas obras e retratá-las ao nosso modo... O meu modo teria sido bonequinhos de palito se Alice não tivesse sentado ao meu lado. Além de toda a sua perfeição, ela ainda sabia desenhar! Acho que Deus às vezes exagerava em uns e se esquecia de outros...
  Ao olhar em volta, distraído, enquanto a filha de Leonardo da Vinci se curvava na minha frente muito ocupada com seus traços, senti falta de alguém. Matheus tinha faltado. Mas o que isso importa? Porque eu estou me preocupando com isso? Alice pareceu ler meus pensamentos e disse: "Parece que o Lorde do Mistério faltou hoje. Soube que você foi para a casa dele fazer um trabalho, afinal, como é lá?"
  Enquanto ela desenhava, narrei toda a minha "aventura" na mansão por quase metade da aula. Quando cheguei na parte em que ele estava na minha cama, ela largou o lápis e me olhou profundamente por um longo momento e me disse: "Eu quero que você fique longe dele, ele é meu." - O sinal havia batido e todos se retiraram.
  Após esse episódio sem pé nem cabeça, Alice não levantou mais os olhos em minha direção pelo resto do dia. Na saída tentei encontrá-la em meio a multidão, mas não obtive sucesso. Fui para casa cabisbaixo, e encontrei Ian no caminho. Ele me abraçou novamente (isso é irritante) e me deu um embrulho. Não quis explicar o que era, e saiu apressado dizendo que tinha um compromisso importante.
  Cheguei em casa, sentei na cama e abri o tal embrulho misterioso... Espera, chocolate? Será que ele confundiu a Páscoa com o Carnaval? Mas o que...
  Qual o problema desse cara?!


  

  

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Dia 9 - "Era uma casa muito engraçada"


 Sei que o post está atrasado e que ninguém gosta disso. Mas não pude postar ontem por motivos de força maior, que você leitor (se é que alguém lê esse site de motivação duvidosa) vai entender nos próximos parágrafos...
  Ontem acordei cedo e tomei meu café-da-manhã como um zumbi. Não que isso seja novidade, mas aos Sábados isso diminui... Um pouco quem sabe. Me aprontei aos tropeços e saí de casa apressadamente em direção ao ponto de ônibus que Matheus havia me indicado no dia anterior para conseguir chegar até a sua casa (que para a minha felicidade era no ponto final). 
  A viagem demorou uns 40 minutos, e esquecer meu MP4 foi um erro imperdoável... Juro por Deus que decorei todo o caminho por isso. Desatento como sempre, tive que ser expulso do veículo pelo trocador por não ter percebido que era o ponto final. Ele tinha me dito que a casa ficava próximo a um café, disse que era uma casa modes... O QUE? MODESTA?! ESSA CASA É MAIOR QUE A ESCOLA!
  Fui recebido por uma empregada (DE UNIFORME!) e subi ramos de escada que pareciam não ter fim até uma sala onde estava sendo esperado. Não pude deixar de notar que aquela "modéstia" poderia muito bem ser entendida como ironia, pois se aquilo era modesto... Eu vivia em um barraco e não sabia.
  Encontrei Matheus sentado numa mesa de estudos com um amontoado de livros e papéis a sua frente, a empregada chamou-lhe e ao se virar me observou de cima a baixo e abriu um sorriso jamais antes visto por mim. - Ele? Sorrindo? O que...
  Quando ficamos a sós, ele apertou minha mão e me conduziu até uma cadeira ao lado de sua mesa e imediatamente começamos o trabalho. Não vi nenhum sinal de computador algum... Somente livros, papéis, pena e tinteiro... PENA E TINTEIRO?! Ah, era só um enfeite.
  Quando dei por mim já era tarde da noite, e ele insistiu que eu deveria fazer companhia em seu jantar pois seus pais tinham viajado e ele não queria ficar sozinho em sua solitária e comprida mesa de mogno (tadinho). Liguei para minha mãe e avisei tudo, e como sempre ela concordou (porque?).
  Após o jantar, ele me levou até a biblioteca e mostrou-me alguns livros velhos, tão velhos que mal podia se enxergar o que estava escrito - Ele vê mesmo alguma graça naqueles papiros? Ao lado das estantes percebi um enorme relógio, ao seu redor eram esculpidos floreios e possíveis passagens bíblicas... Ele badalou dez vezes e... Espera... Dez vezes?! São dez da noite?
  "Não se preocupe" - ele disse. "Enquanto você estava distraído com os livros, tomei a liberdade de avisar aos seus pais que dormiria aqui. As ruas são muito perigosas a essa hora aqui por perto." E deu um sorriso que pareceu para mim, polido com triunfo.
  Porque mãe? Porque a senhora tem que ser tão bondosa?
  Eu estava cansado, e fui apresentado ao meu quarto no instante que o disse. Era um quarto no fim do corredor do segundo andar, uma suíte para ser exato. Se eu não soubesse que lugar era aquele, juraria que se tratava de um hotel, o quarto era maior que a minha sala!
  Peguei no sono em menos de quinze minutos, até que senti o meu cobertor ser puxado para o lado. Como a coragem corre em minhas veias virei para o lado num salto, ficando em pé na cama batendo com o travesseiro na figura deitada ao meu lado... E era... MATHEUS?
  Ele tentou explicar que se sentia sozinho e que aquela casa lhe dava medo...  Medo uma ova! Saia já da minha cama! - eu gritei, empurrando-o para fora do colchão. Ele saiu do quarto rindo, como se tudo aquilo fosse uma brincadeira.
  A partir daí, não consegui mais dormir. E voltei pra casa na primeira hora da manhã, afirmando que tinha um compromisso urgente. Cheguei em casa e dormi até o início da tarde, somente para almoçar e dormir de novo... E agora aqui estou eu postando isso para os curiosos que ainda o leem.
  Acho que vou dormir mais um pouco... Porque ele estava na minha cama?!
  


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Dia 8 - "Tudo pode se aprender entre as flores"


  O trabalho de Geografia havia sido marcado para ser entregue na próxima quarta-feira. Sabendo que meus pais são responsáveis a ponto de ainda não terem desempacotado toda a mobília, não seria possível ser feito em minha casa e por este mesmo motivo fora marcado na casa de Matheus (mesmo com um pouco de hesitação de ambos os lados). 
  Fora isso, o dia na escola fora monótono além da conta. As coisas só começaram realmente acontecer quando minha turma foi liberada para casa na hora do almoço. Almoçei as pressas em um restaurante próximo e me apressei em chegar na loja de seu pai. Todas as sextas eu iria substituir meu pai na loja (curso de jardinagem, vai entender), mas não estaria sozinho. Ian estaria comigo lá entre as rosas, margaridas, tulipas... E outras chatices vivas que chamam de flores.
  Chegando lá, meu pai já estava de saída e Ian já estava atrás do balcão com o uniforme e o avental verde com o logotipo da loja. 
  É, meu pai não tem mesmo bom gosto...
   Troquei de roupa nos fundos da loja e fui para a recepção. Sem aviso algum fui recebido com um abraço apertado dele, como se já fôssemos amigos a muito tempo. Quando me esquivei daquela forma de afeto de intenção duvidosa, ele somente riu e foi aparar as rosas sem nem menos explicar o que havia acontecido.
  Fingindo que nada havia acontecido (difícil), fui trabalhar no caixa e lá fiquei até o fim do expediente. Criando uma coragem que nem mesmo eu conhecia, resolvi perguntar o porque daquela demonstração de afeto desesperada. Ele simplesmente respondeu com um sorriso de orelha a orelha: "Somos amigos, não?" - Fechou a loja e saiu caminhando após acenar calorosamente em despedida(sorrindo como o de costume).
  Mas... Mas o que foi isso?
  Minha casa ficava a menos de duas quadras dali, e a de Ian também pelo visto, pois ele andara a pé até entrar na portaria de um prédio próximo (mas que droga!). Subi as escadas como um zumbi e caminhei até o quarto, notando que todos já estavam em suas camas.
  Desabei na cama como árvore em queda, e estou aqui tentando achar um sentido para tudo que me aconteceu hoje...
  O que... O que foi exatamente aquilo?!



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Dia 7 - Trabalhos dão trabalho . . .


 Trabalho em grupo: caos. Pensei que seria um dia tranquilo, mas não foi nem perto disso. Além de aulas que pareciam ser projetadas para dar sono aos ouvintes, os trabalhos em grupo choviam aos montes (quase morri ao ouvir que um professor disse que fazia isso para fortalecer os relacionamentos da turma).
  Fortalecer? Relacionamentos? Turma? O que?!
  Quando ouvi a palavra "sorteio", tive um pequeno desejo de homicídio. Por sorte, minha dupla foi uma garota que havia conhecido desde o primeiro dia. O nome dela era Alice e parecia ser simpática, além de uma aparência que impressionava a qualquer um que a admirasse.
  Para a minha felicidade, o trabalho era de história (um dos poucos assuntos que eu realmente me dava bem). Alice era realmente a garota modelo: boa personalidade, boas notas e boa aparência... Não que eu goste dela, mas a beleza que ela possui é realmente incrível. Às vezes me pergunto se ela realmente é humana. Muitos acham que pessoas bonitas devem obrigatoriamente ser em compensação burras ou algo do tipo, mas Alice era a prova viva de que isso não era verdade.
  Além de todos os tópicos de perfeição que a envolviam nos papos sussurrados de todos os garotos do Colégio, ela ainda trabalhava como voluntária numa obra de caridade para crianças órfãs (é, ela é realmente inacreditável).
  Fizemos o trabalho na biblioteca e ela se mostrou extremamente sociável, sempre com um sorriso tímido no rosto o que a deixava mais bonita do que o de costume. O trabalho era sobre Feudalismo e o poder da Igreja na Idade Média, e fiquei extremamente surpreso ao ver que uma menina tão bonita e popular podia ser tão inteligente e interessada ao mesmo tempo!
  Fomos os primeiros a entregar o trabalho, e pude notar um sorriso de satisfação no rosto do professor ao folheá-lo na nossa frente. Conversamos o restante do tempo, e acho que criamos um laço de amizade forte o suficiente para contar intimidades! Finalmente consegui uma verdadeira amiga, eu acho.
  O último tempo era de Geografia e a professora decidiu também dar um trabalho em grupo, sorteando duplas diferentes. Fui o terceiro a receber minha dupla... Foi quando a professora desdobrou o papel e disse em voz alta: "Matheus!"
  Matheus? Mas que Matheus é es... NÃO!  - Era o garoto da escada...
  Porque? Porque eu? Porque ele?!
  
  
  
  


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dia 6 - Degraus de pedra

  

  Se eu pudesse escolher uma só palavra para descrever o segundo dia de aula, seria: monotonia (até certo ponto). Alguns novos professores, a matéria já havia começado e eu nem tinha notado que estava na sala de aula ainda. 
  Apesar de quase dormir na aula de Química com a linda voz de documentário de meu professor, a Educação Física foi divertida apesar de não ser uma das minhas preferidas.
  Eu fiz uma cesta! Sim, isso é muita coisa pra mim... Depois de um pouco de suor e empurrões, claro. Mas fiquei radiante de fazer o meu time obter alguns pontos a frente, não foi a melhor jogada de minha vida mas valeu cada segundo.
  Estava tudo bem até que a aula terminou e fomos liberados para ir para casa. Como sempre, eu esqueci alguns livros debaixo da carteira e tive que retornar a sala enquanto todos iam embora. Eu estava descendo a escada quando senti o chão faltar e pisei em falso num degrau com uma distância mal calculada (Desastre é o meu nome do meio). Não havia corrimão e tentei me equilibrar em vão, caindo em direção a dois ramos de escada de pedra em segundos que pareceram durar uma eternidade.
  Quando pensei que ia acordar em coma depois de três meses, senti uma mão segurar me camisa e me vi pendurado como uma tábua. Primeiro olhei ao redor e senti uma náusea ao observar a altura que teria a queda, e logo depois olhei para o rosto do anjo que havia me segurado. Ainda não tinha acreditado no que havia acontecido, e olhei para ele com uma expressão que deveria ser aterrorizante, até porque ele também não estava com uma cara feliz...
  É o garoto do fundo da sala! Tinha me esquecido que ele sempre era o último a sair...
  Ele me puxou para cima, e saiu andando apressadamente antes mesmo de eu poder agradecer. Eu segurei sua manga e ele desviou de forma brusca, dizendo apenas: "Não precisa agradecer novato". Não sou nenhum especialista no assunto, mas poderia jurar que vi seu rosto com uma vermelhidão acentuada nas bochechas.
  Não era nenhum durão, mas também nenhum bobalhão... Era... Normal. 
  Agradeci enquanto ele andava apressadamente para a porta com seus livros quase caindo de seus braços. Nem ao mesmo sabia o nome dele para agradecer de forma correta...
  Voltei pra casa, revisei as matérias, e agora estou no computador até onde meu sono permitir... Qual o problema dessas pessoas? Há pecado em salvar algum desastrado de uma queda mortal? As garotas nunca haviam falado sobre ele, mas percebi que nem ao menos tinha perguntado.
  Quem é ele afinal?!
  
  
  
  

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dia 5 - O primeiro de muitos


  Primeiro dia de aula, dia de alegria! Um dia único de se viver, ainda mais quando se está numa escolha nova, numa cidade onde você só conhece a sua família e um garoto estranho que desenha orquídeas! Não é demais?! Não, não é...
  Ao avistar os portões da escola, uma vontade súbita de vomitar percorreu todo o meu corpo. Minha mãe disse que era ansiedade, mas eu digo que é bom senso! Eu não conheço absolutamente ninguém daquela atmosfera. Onde vou me sentar? Com quem falar? Como agir? E se o professor me apresentar na frente de todos como o garoto paulista engraçado? Se ele ler meu sobrenome alto? Contanto que meu apelido não seja Mr. Sushi...
  A coordenadora se apresentou na entrada e se ofereceu para mostrar a escola para mim e para a minha mãe, que por um maldito telefonema disse que tinha que correr para o hospital (não, ela não é uma cirurgiã de renome) e ajudar meu pai com um contrato de entrega de flores para pacientes.
  A partir daí, minha caminhada foi com a coordenadora que mais parecia uma guia truística. Percorri quadras, bibliotecas, anfiteatros, e até um claustro que não era de se jogar fora. Até que enfim, cheguei em minha nova sala de aula.
  Por sorte, ainda não havia ninguém lá. Mas a coordenadora disse que eu poderia esperar o resto da turma ali mesmo, o que foi um alívio. Prefiro receber pragas pelo menos sentado.
  Diferentemente do que eu pensei, a turma era extremamente tranquila e possuía uma esmagadora maioria feminina. Fui bem recebido, até melhor do que podia imaginar e percebi que todos já esperavam a minha chegada - As notícias se espalham rápido por aqui.
  Até a chegada do professor, todos formaram uma roda envolta de mim, perguntando de tudo um pouco... Porque você veio para o Rio? Como é São Paulo? Seu pai trabalha em que? Qual seu livro favorito? Você usa chapinha? Enfim... Todos, menos um dos poucos garotos da sala. Ele preferiu permanecer no canto, concentrado no livro que segurava nas mãos...
  Talvez ele também fosse um novato...
  Como o de costume, o primeiro dia foi visivelmente um dia de apresentação e conversa, o que fez o tempo passar rápido (graças aos Céus). Cheguei em casa exausto, mas a imagem do garoto no fundo da sala permanecia em minha cabeça.
  Ninguém falou com ele. Porque ele não se manifestou o dia todo?!
  
  


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Dia 4 - As orquídeas falam . . .

 Perdoem-me, mas uma pequena obstrução na minha rede elétrica não permitiu que eu contasse o nem tão animado Domingo que eu tive.
  Como se não bastasse o dia anterior, recheado de caminhadas cansativas pelo Centro, o meu domingo foi adornado com um passeio ao Jardim Botânico. Não sei já havia comentado mas o meu pai é um floricultor nato (acho que isso ficou claro quando eu disse que ele abriria uma loja de flores), e passou todo o percurso explicando a história de cada uma das flores que apareciam.
  Passamos pelas palmeiras, tão altas que causavam vertigem ao tentar ver seu topo. O Jardim Japonês me fez lembrar de Liberdade, lembranças duras e felizes ao mesmo tempo. 
  Ah! Como eram...
  Meu pesadelo foi ao chegar no orquidário. Juro pela minha felicidade que até agora eu lembro de todos os nomes científicos daquelas malditas. Acho que meu pai não consegue perceber quando está sendo inconveniente. Consegui me safar com um teatro de falta de ar que fiz para a minha mãe e comecei a caminhar pelo entorno do estabelecimento.
  Depois de um tempo distraído, percebi que estava perdido, o que já era de se esperar vindo de mim. Pedi então ajuda a um rapaz que vi sentado num banco, e percebi que ele estava lendo um livro sobre orquídeas e as desenhando com o que parecia ser carvão... Qual o problema desse cara? 
  Percebi que as aparências enganavam e ele foi muito gentil e não puxou papo sobre flores, e só me mostrou o caminho de volta. Encontrei meus pais prontos para acionar a segurança, e por sorte não levei uma bronca na frente da metade da população daquele bairro.
  Por uma coincidência sem mensura, o rapaz que havia me ajudado era o atendente que meu pai havia contratado para a sua nova loja. Portanto, apresentações feitas, descobri que seu nome era Ian (isso é um "i") e estudava Biologia na UFRJ. Parecia ser um cara legal, mas solitário... Ele desenhava orquídeas cara!
  Depois do passeio "divertido" voltei pra casa e desmaiei na cama pra tentar sobreviver ao calor vindo da falta de luz...
  O que o Universo tem contra a minha pessoa?!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Dia 3 - Próxima estação, quem sabe ao certo?


  Meu dia hoje começou cedo, tive de acompanhar meu pai ao centro do Rio para visitar possíveis locais de sua loja. Eu, sinceramente, preferiria que a loja fosse perto de minha casa. Afinal, sou eu quem vai ficar nela quando nenhuma alma caridosa o fizer.
  Irritação à parte, o metrô daqui é bem mais tranquilo... E limpo também! Sempre gosto de me sentar perto da janela e ver as paredes subterrâneas passando pelo vidro. Me faz pensar em como nossa vida parece tanto com uma viagem de metro: Tudo passa tão rápido, as pessoas vêm e vão, as estações mudam... Espero que a estação em que eu vá saltar seja segura, minha vida se torna mais confusa a cada tormente do trilho.
  Três lugares, e nenhum deles aceito por meu pai. Quando comecei a achar que o meu dia havia sido perdido em vão, ele recebeu uma ligação de um amigo que havia se mudado a pouco tempo do Rio. Ele oferecia um espaço comercial em troca de uma quantia generosa, e que coincidentemente era próxima a minha casa.
   Meu pai havia ficado tão animado com a boa nova que pagou um táxi até em casa. Quando sento na janela de um carro e sinto o vento em meu rosto, eu consigo pensar melhor, e em toda a volta tive uma estranha sensação. Alguma coisa bem no fundo de meu ser dizia que algo iria mudar, eu não sabia o que nem como... Simplesmente sentia.
  Uma ansiedade sem aviso tomou conta de meu corpo, enquanto borboletas dançavam em meu estômago...
  O que está havendo comigo?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dia 2 - Lar, novo lar. . . Será?


   Mal podia sentir minhas pernas quando saltei no estacionamento do prédio. A viagem foi longa e as paradas poucas. O que há de errado aqui, como essas pessoas aguentam essa temperatura? Pelo menos o subterrâneo do prédio era fresco, mas carregar as malas foi uma tortura.
  Vendo o lado bom disso tudo, é um bairro tranquilo pelo que dizem. E eu vou ter um quarto só meu! Apesar de que vou ter que ajudar meu pai com o negócio que ele decidiu abrir aqui... Não, não é uma pastelaria... E não, eu não vou vender imagens de Buda. É na verdade uma loja de flores. Modesta, mas pelo menos terá um cheiro agradável.
  Desfazer as malas é a pior parte, não só pelo fato de ser um saco desempacotar as coisas, mas acabamos lembrando do que deixamos para trás. Fotos de amigos, objetos pessoais carregados de lembrança. É tão duro abandonar um passado mesmo ele estando a uma estrada de distância.
  Espero que eu consiga me adaptar a esse novo lugar. São Paulo não era bem o que eu chamaria de paraíso, mas as diferenças são muitas e o meu tempo para me adaptar é bem pouco. Só tenho esse final de semana até a chegada das aulas na segunda-feira.
  É um dia que eu sinceramente não tenho nenhuma pressa que chegue. Nova escola, novos alunos, novos professores... Porque?!
  Porque tudo tem que ser tão rápido?!
  

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dia 1 - Mudanças



  Meus tataravós eram japoneses. Vieram para o Brasil, como a maioria dos imigrantes japoneses em busca de melhores condições de vida. Melhores condições de vida? Conta outra...
Antes de mais nada, eu tenho que me apresentar: Sou Miguel Takada, um adolescente qualquer que por um acaso desgostoso nasceu parte da Terra Brasilis, por possuir ancestrais que abandonaram a sua terra natal. E então, resolveram agora mudar-se novamente...
  Do Sol Nascente, os Takadas resolveram mudar-se para as "margens plácidas" do Rio Ipiranga. Os antigos samurais se tornaram vendedores de uma pequena lojinha num bairro que se denomina como Liberdade... Apesar de eu nunca tê-la percebido por essas ruas.
  Mas felizmente isso é passado. Nesse exato momento, o carro de meu pai se dirige àquela que todos chamam de Cidade Maravilhosa. Abençoada pelo Cristo, do Leme ao Pontal, da morena bonita... Enfim, vocês já sabem aonde eu vou parar.
  Só espero que o Cristo seja realmente Redentor lá de cima, porque aqui embaixo a vida não está nada fácil.
  Kami-sama, porque tudo é tão complicado?