Um dia de sábado é aquele dia em que você quer fazer tudo o que não pode fazer na semana, mas ao mesmo tempo você quer dormir o dia todo. Na maioria das vezes, eu passo meu sábado em casa fazendo os deveres de casa e jogando meus videogames. Mas dessa vez não foi bem assim.
Acordei tarde, já era mais de meio-dia quando eu dei por mim. Ontem eu tinha ficado até bem tarde no Sushi Bar com o Ian - Ian... Será que aquilo tinha mesmo acontecido?
Levantei e fui para a mesa da cozinha para tomar meu café-da-manhã. Minha mãe havia saído pra fazer as compras semanais antes que tudo fechasse para o Carnaval, e meu pai estava na mesa lendo o jornal como o de costume. Quando meu viu ele sorriu e disse que queria sair comigo hoje para fazer algo de diferente.
Afirmando de que não estávamos aproveitando a beleza da cidade como devíamos, ele me convidou para ir pescar com ele depois do almoço. Como eu não tinha nada o que fazer, não pude fugir e acabei aceitando. Eu realmente não vejo graça em segurar um pedaço de pau pra esperar que seres marinhos mordam sua isca e fiquem se debatendo até morrer.
Depois do almoço, fiquei assistindo alguns filmes que minha mãe tinha alugado em sua ida à rua. Nada demais, só alguns melodramas pra passar o tempo. Quando percebi, já eram quatro da tarde e meu pai já se vestia para a pescaria. Desde que eu o conheço, o ato de se preparar para pescar é como um ritual para ele. Às vezes eu me pergunto se ele acende alguma vela e coloca pétalas de rosas na banheira.
Se em algum dia eu precisasse de alguma imagem para descrever a palavra "cafona", seria o meu pai vestido para pescar: Chapéu decorado com iscas, camisa branca, botas de borracha pretas, e um macacão verde com um peixe sorrindo bordado.
Eu realmente tenho que passar por isso?
Ele ligou o carro e fomos em direção a uma tal "Pedra do Leme", lugar frequentado pelos melhores pescadores, como o meu pai disse. O caminho demorou um pouco pelo trânsito, o que eu gostei. Pelo menos assim eu podia apreciar a paisagem ouvindo minhas músicas.
Uma hora já havia passado e nenhum sinal de peixe algum. Eu estava sentado em uma cadeira dobrável quase pulando daquela pedra de tanto tédio, foi quando eu o vi. Não, não parecia possível... Mas era ele: Matheus.
Mas o que ele está fazendo aqui? No mesmo dia, na mesma hora?!
Tentei me esconder atrás do jornal de meu pai mas já era tarde demais, ele havia me visto.
"Miguel!" - ele disse - "Não sabia que você gostava de pescar! Mas que coincidência, eu amo pescar!"
Porque? Porque meu Deus? Porque logo ele? Meu pai nem notou a presença dele, estava concentrado demais na sua pescaria sagrada. Ainda bem, imagina se eles se tornam amigos de pescaria!
Ele insistiu para que eu fosse com ele ao final da pedra, dizendo que os melhores peixes ficavam naquela parte (aham, peixes). Ficamos um bom tempo em silêncio ao som das ondas se chocando contra as pedras, até que ele disse:
"Eu sinto muito pelo que aconteceu lá em casa. Eu estava fora de mim, me perdoe. Eu também soube do boato que a Alice criou, mas não liga pra isso! Eu vou dar um jeito quando voltarmos às aulas."
Fiquei parado olhando para ele por alguns segundos, e notei que ele estava dando o sorriso galanteador de sempre. Virei meu rosto para o mar, e anui com a cabeça. Ele sorriu e completou:
"Eu falo isso porque... Porque eu te amo Miguel."
De primeira mão eu não tinha escutado direito, foi quando eu olhei na direção dele. Ele não estava mais sorrindo e se aproximava de mim, eu o empurrei. Ele caiu na areia e eu corri para aonde meu pai estava.
Ele já estava arrumando as coisas para ir embora, quando me viu. Perguntou aonde eu tinha ido, e eu lhe disse que tinha visto um peixe-espada passando e me distrai. Andamos até o carro, e nenhum sinal de Matheus... No caminho, eu podia ouvir a voz dele repetindo palavra por palavra.
Ele... me ama?!

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