segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Dia 19 - Miojo e legumes


  Passada a cena shakesperiana no apartamento, Ian insistiu inconformavelmente para que eu passasse aquela noite com ele. Decidiu então ligar para a minha mãe, e com um pouco de charme e galanteio a minha (tão bondosa e inocente) mãe aceitou no ato.
  Tomei a corajosa decisão de ajudar naquela bagunça e em desfazer as numerosas malas. Quando terminamos e toda a casa já estava totalmente arrumada, o que devia ser raro de se acontecer ali, a noite já havia caído e nós dois estavam igualmente mortos de fome. Como um solteiro clássico, a geladeira da casa estava mais vazia que a  de Março pós-Carnaval.
  Fui a um mercado próximo e comprei os ingredientes essenciais para uma janta corrida: miojo e legumes. Tentei usar toda os dotes culinários herdados de meus ancestrais, mas de nada adiantou... Ainda era um miojo com legumes.
  Depois de satisfeitos, vimos filme até bem tarde da noite (um dos motivos de eu não ter postado, culpem ele). Até eu começar a protestar afirmando que havia aula no dia seguinte. Como só havia um quarto e um só colchão, tive que compartilha-lo. Graças aos Céus, nada de incomum aconteceu aquela noite e até que ele se comportou bem. A não ser a parte que ele se mexe demais enquanto dorme.
  A segunda-feira foi pacata. Corri para casa bem cedo e mesmo assim perdi o primeiro tempo de aula. Agora que toda a sala havia se tornado um campo de guerra, eu não tinha muito prazer em frequentar a minha escola. Os únicos seres humanos a quem eu dirigia alguma palavra eram: Francisco, os professores, e a mulher da cantina porque não tem como você conseguir comida sem falar.
  Química, física, matemática e geografia. Acho que a coordenadora gosta de brincar ao escolher as matérias de segunda-feira. Não dormir naquele dia parecia mais difícil que os Doze Trabalhos de Herácles, mas bravamente eu o suportei sem pestanejar.
  Tudo havia corrido bem até na hora da saída. Muitas pessoas ficavam encostadas no muro próximo ao portão, e Alice e sua "gangue" pareciam apreciar aquele hobby.  Ao passar pelo portão, senti que diversos olhares me seguiam pelas costas e ao me virar percebi que um deles era de Alice.
  Ela veio até mim, e com um sorriso amarelo estampado no rosto disse quase sussurrando:
 "Soube que tem um novo amor, Takada... Espero que seus pais saibam que ele é maior de idade, seria bem triste se isso se espalhasse, não é?"
  Saiu andando lentamente, olhando-me nos olhos até onde podia. Quando dei por mim, olhava para a calçada ainda não compreendendo o que havia acontecido. Percebi que todos me olhavam e comecei a andar apressado em direção à minha casa.
  Como... Como ela soube? Eu não contei a ninguém! Ninguém pode saber disso... A não ser... Não, não pode ser ele.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Dia 18 - A casa do biólogo


  Não consegui dormir a noite inteira. Acho que foi Mikage que tem a mania de morder meus dedos do pé. Hoje foi aquele dia em que você acorda e não quer fazer mais nada a não ser voltar para a cama e permanecer nela o dia todo.
  Meus pais foram visitar meus avós que moravam em outro bairro, pelo que me pareceu na Zona Sul. A casa ficava morta sem os dois, andando pela casa, discutindo sobre as necessidades do gato, vendo televisão... Apesar de tudo, eu amo meus pais do jeito que eles são afinal.
  Todos os deveres de casa tinham sido feitos, tinha terminado de ver o último episódio da série que eu estava acompanhando e também tinha terminado de ler o livro que tinha ganhado de presente da minha prima. Era definitivamente um dia morto...
  O Ian vai embora hoje...
  Eu poderia ir me despedir indo na casa dele. Mas ele sequer me avisou, soube pela minha mãe. Talvez ele esteja envergonhado ou arrependido, ou até com medo da minha reação. Acho que não custa nada eu tentar falar com ele, odeio deixar assuntos pela metade.
  Tomei um banho rápido, mudei a minha roupa e deixei comida e uma caixa de areia limpa para Mikage. Após fechar o portão, olhei na direção onde deveria ser a casa dele  e andei até a portaria do prédio. Chamei pelo porteiro e pedi informações sobre Ian, mentindo ser da faculdade (lembrei de o nome de um colega do qual ele havia comentado na loja). Ele chamou pelo interfone e fez sinal para que eu pegasse o elevador.
  Chegando lá, percebi que não sabia o número do apartamento. Mas, para a minha surpresa, uma porta se abriu atrás de mim. Era ele, com uma cara de surpresa, olhando para mim. Por um momento ele permaneceu com os olhos verdes abertos, sem compreender o que se passava. Provavelmente, esperava mesmo que fosse seu amigo da faculdade.
  Passado a surpresa, ele se afastou do caminho e me deu passagem, fazendo um gesto de convite à minha entrada. Quando atravessei o corredor, notei que ele morava sozinho. A casa estava um caos, roupas, livros, comida... Nem parecia que alguém ira viajar naquela tarde.
  "Miguel, sobre semana passada eu..." - ele disse olhando para o chão. 
  Eu o interrompi com um aceno de mão, e expliquei que não havia problema naquilo.  Ele nem ao menos perguntou o porque da minha visita, mas me adiantei e disse que só fui até lá me despedir. Disse também que o intercâmbio era uma coisa ótima, e que isso abria várias portas para o futuro e...
  "Eu só estou indo por sua causa..." - os olhos verdes faiscando sobre mim.
  Fiquei parado, olhando fixamente para ele. Senti todo o meu corpo queimar diante daquele olhar acusador, mas ao mesmo tempo triste. Não sei por qual motivo, mas senti um vazio inesperado em meu peito e todo o chão pareceu se abrir em um imenso buraco negro debaixo de meus pés.
  "Eu... Eu não quero que você vá. Quem vai me ajudar a escolher as flores? A contar o dinheiro do caixa? A me ajudar a fechar aquelas portas de metal... Quem vai... Quem vai estar comigo quando eu preciso?"
  Senti meu rosto quente e molhado... Eu estava chorando. Mas eu não podia chorar, não na frente dele... Eu não posso.
  De um instante para o outro, ele já não estava na porta. Se encontrava na minha frente, e no mesmo instante seus braços me envolviam e eu senti o calor de seu corpo, era reconfortante mas senti que ele tremia. Ele era um pouco maior que eu, um pouco baixo para um universitário. E seu cheiro era bom... Quer dizer, bom para um homem solteiro. Não que eu saiba como é o cheiro dos homens... É que... Argh!
  "Eu sei que isso é errado." - ele disse - "E que todos irão contra isso. Mas eu te amo, Miguel. Mais do que a qualquer pessoa que já amei, quando lhe abraço eu tremo... Porque é muita responsabilidade ter meu mundo todo entre meus braços."
  Naquele momento eu percebi que tudo que eu precisava estava ali, entre aquelas paredes. Em meio a roupas jogadas, livros em pilheiras e rascunhos de desenhos feitos com carvão... O meu amor estava ali, e de nada mais eu precisava.
  Sim, hoje o "post" termina sem perguntas... Não há nada mais o que se questionar nesse mundo.
  

  

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Dia 17 - Estados Unidos . . . Porquê?


  Como não havia nada de importante a se fazer hoje, dormi até bem depois do de costume. Acordei pela luz do sol que atravessou as cortinas e brilhou em meu rosto, já era a hora do almoço. Levantei e fui direto para a mesa que já estava sendo posta. Meus pais amam conversar durante as refeições, então aproveitei a minha deixa para levantar e ir para o meu quarto depois de escovar os dentes.
  Me sentei na escrivaninha próxima a janela e comecei a fazer todos os deveres pendentes. O mais novo integrante da família Takada, Mikage, deitou-se ao meu lado e observou por uma tarde inteira os movimentos da caneta no papel, sempre tentando pegá-la com suas pequenas patas.
  Ao final de tudo, já era final de tarde e saí do meu quarto para beber um pouco de água. Pelo meu ver, meu pai tinha saído para cuidar da loja e minha mãe estava na sala lendo uma revista qualquer sobre costura. Ela parou de ler e me observou por um momento, e fez um sinal para que eu me sentasse ao seu lado.
  Conversamos por um bom tempo sobre a escola, como estavam sendo as mudanças e porque eu não tinha saído pra folia no carnaval (como se isso fosse da minha natureza). Até que ela ficou séria e disse: "Miguel, eu vi tudo." Depois de eu perguntar que "tudo" era esse, ela me contou que estava na janela quando o Ian me... Vocês sabem.
  Acho que falamos por quase duas horasaté que inesperadamente ela acrescentou: "Ian é um bom rapaz, conheço a mãe dele a um bom tempo. Foi muita coincidência nos mudarmos para tão perto uma das outras, acho que você não lembra mas você brincava com ele quando pequeno."
  Era verdade, eu sabia que conhecia ele de algum lugar... Agora tudo fazia sentido. De início eu fiquei muito confuso e envergonhado. Quem disse de que eu gostava dele? Quem disse que eu gostava de homens? A minha mãe deve ter algum problema mental grave...
  Quando ela se levantou, me contou por final que Ian estava se mudando para os Estados Unidos para fazer alguma espécie de intercâmbio e estágio. E ia partir amanhã ao final da tarde.
  Amanhã?! Tão cedo... Ele nem se despediu...
  

  

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Dia 16 - Mikage


  O dia de ontem não foi postado, pois ao meu ver não há nada de interessante: ajudar sua mãe a arrumar a casa, fazer os deveres de casa, assistir filmes de drama alugados pelo seu pai sentimental, e comer lasanha para depois ler até dormir.
  Mas o dia de hoje foi diferente, e achei que ele merecia um post. Como algumas pessoas, meu pai decidiu abrir a loja dele após o horário de almoço. E é claro, esse dever sobrou para ninguém menos que eu mesmo.
  Pelo que ouvi Ian havia viajado desde sábado, e eu iria ficar a tarde toda sozinho com toda a diversão de cuidar de flores para mim. O pólen normalmente me fazia espirrar, mas era tanto tempo convivendo com aquelas plantas que meu nariz sossegou. Nada, nenhum cliente...
  Já era de se esperar não é? Quem em sã consciência vai comprar flores numa quarta-feira de cinzas?!
  Quando eu já estava adormecendo no balcão, ouvi a sineta da porta tocar. Entrou então na loja uma garota. Ela era bonita, possuía grandes olhos verdes e uma cabeleira castanha que esvoaçava acompanhando o seu tímido caminhar por entre as flores. Não dirigiu nenhuma palavra a mim, até que se aproximou do ramo de cerejeira e perguntou-me o preço. Eu ainda estava perplexo com sua beleza, e por alguns segundos permaneci observando-a apontar para as flores sem ouvir nenhum som de sua boca.
  Por fim, ela resolveu comprar a de pessegueiro por uma dica minha. Saiu sorrindo e satisfeita, agradecendo e acenando enquanto abria a porta da loja com o pé para aguentar os ramos com as duas mãos.
  Ela era linda...
  Quando estava fechando a loja, encontrei meu pai no caminho de casa. Ele segurava uma caixa com furos redondos, e parecia que estava sussurrava para ela. Tudo bem, meu pai tem muitas coisas estranhas, mas conversar com caixas na rua era novo. Me aproximei e ele disse que havia comprado numa feira perto dali, abriu a caixa e me mostrou o filhote de gato malhado que miava desesperadamente.
  Fomos para casa juntos, e notei que o gato já possuía coleira, caixa de areia, pote de ração e tudo que um felino doméstico necessitava... Menos um nome. Decidi por fim chamá-lo de Mikage, nome de um personagem de um desenho que assisti fazia a tempo. Era um garoto que morreu para o seu amigo viver e renasceu em forma de animal doméstico para nunca se separar do mesmo.
  Quem sabe ele também não vira meu amigo? Num mundo tão confuso desses, quem sabe um gato não seja mais companheiro...


  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dia 15 - A janela


  Quando se chega nessa vida ninguém avisa o que vai lhe acontecer. Ninguém te conta sobre as descobertas da infância, sobre as dúvidas da juventude, as dificuldades da vida adulta, e nem sobre a saudade que ronda a velhice.
  Nada me foi dito sobre o amor, sobre suas reviravoltas, suas alegrias e tristezas. Era apenas Miguel, o pequeno Miguel... Inocente, infantil, sem a mínima noção de vida. Até que então a vida vira de cabeça para baixo e tudo começa a acontecer como dominós que se chocam.
  Nunca me foi dito o quanto a vida não é fácil. Dinheiro, felicidade, amor. Afinal, o que é vida? Qual o sentido dessa existência humana tão frágil e momentânea que nos é dada? Alguns diriam que o correto é enriquecer, outros diriam sobre almas gêmeas, buscar a Deus... São tantos pontos de vista.
  Mas e eu? O que faz Miguel nesse mundo de tropeços e acertos? Nesse ninho de cobras rodeado por seda... A vida não é fácil, ninguém nunca nos disse isso. Mas o que eu queria entender, é porque tudo cai sobre a sua cabeça de uma vez só?
  Lá estava eu, pleno domingo de Carnaval, sentado sobre minha cama observando o mundo passar janela afora. Essa foi definitivamente a semana mais caótica de toda a minha existência. Amigos se tornam inimigos e amigos se tornam pretendentes, o que eu vou fazer quando esse feriado terminar?!
  Acho que só Deus saberia me dar essa resposta. Não sou de cair na folia, e meu humor não vai me deixar aceitar convites para sair. Principalmente de certos estudantes de Biologia que moram aqui perto... Ou de pescadores mirins que moram em uma mansão.
  Seria bem legal se eu tivesse mais amigos por aqui. Os que deixei em Liberdade ainda falam comigo pela internet, mas não é a mesma coisa... E Francisco está viajando. Acho que só me resta fazer meus deveres de casa e esperar esse inferno passar. Quem sabe no final disso tudo, eles venham e digam que foi tudo um grande mal entendido? Pouco provável, mas quem sabe não é?
  Não... O que é que eu vou fazer?!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Dia 14 - As ondas agridem as rochas


  Um dia de sábado é aquele dia em que você quer fazer tudo o que não pode fazer na semana, mas ao mesmo tempo você quer dormir o dia todo. Na maioria das vezes, eu passo meu sábado em casa fazendo os deveres de casa e jogando meus videogames. Mas dessa vez não foi bem assim.
  Acordei tarde, já era mais de meio-dia quando eu dei por mim. Ontem eu tinha ficado até bem tarde no Sushi Bar com o Ian - Ian... Será que aquilo tinha mesmo acontecido?
  Levantei e fui para a mesa da cozinha para tomar meu café-da-manhã. Minha mãe havia saído pra fazer as compras semanais antes que tudo fechasse para o Carnaval, e meu pai estava na mesa lendo o jornal como o de costume. Quando meu viu ele sorriu e disse que queria sair comigo hoje para fazer algo de diferente.
  Afirmando de que não estávamos aproveitando a beleza da cidade como devíamos, ele me convidou para ir pescar com ele depois do almoço. Como eu não tinha nada o que fazer, não pude fugir e acabei aceitando. Eu realmente não vejo graça em segurar um pedaço de pau pra esperar que seres marinhos mordam sua isca e fiquem se debatendo até morrer.
  Depois do almoço, fiquei assistindo alguns filmes que minha mãe tinha alugado em sua ida à rua. Nada demais, só alguns melodramas pra passar o tempo. Quando percebi, já eram quatro da tarde e meu pai já se vestia para a pescaria. Desde que eu o conheço, o ato de se preparar para pescar é como um ritual para ele. Às vezes eu me pergunto se ele acende alguma vela e coloca pétalas de rosas na banheira.
   Se em algum dia eu precisasse de alguma imagem para descrever a palavra "cafona", seria o meu pai vestido para pescar: Chapéu decorado com iscas, camisa branca, botas de borracha pretas, e um macacão verde com um peixe sorrindo bordado.
  Eu realmente tenho que passar por isso?
  Ele ligou o carro e fomos em direção a uma tal "Pedra do Leme", lugar frequentado pelos melhores pescadores, como o meu pai disse. O caminho demorou um pouco pelo trânsito, o que eu gostei. Pelo menos assim eu podia apreciar a paisagem ouvindo minhas músicas.
  Uma hora já havia passado e nenhum sinal de peixe algum. Eu estava sentado em uma cadeira dobrável quase pulando daquela pedra de tanto tédio, foi quando eu o vi. Não, não parecia possível... Mas era ele: Matheus.
  Mas o que ele está fazendo aqui? No mesmo dia, na mesma hora?!
  Tentei me esconder atrás do jornal de meu pai mas já era tarde demais, ele havia me visto.
  "Miguel!" - ele disse - "Não sabia que você gostava de pescar! Mas que coincidência, eu amo pescar!"
  Porque? Porque meu Deus? Porque logo ele? Meu pai nem notou a presença dele, estava concentrado demais na sua pescaria sagrada. Ainda bem, imagina se eles se tornam amigos de pescaria!
  Ele insistiu para que eu fosse com ele ao final da pedra, dizendo que os melhores peixes ficavam naquela parte (aham, peixes). Ficamos um bom tempo em silêncio ao som das ondas se chocando contra as pedras, até que ele disse:
  "Eu sinto muito pelo que aconteceu lá em casa. Eu estava fora de mim, me perdoe. Eu também soube do boato que a Alice criou, mas não liga pra isso! Eu vou dar um jeito quando voltarmos às aulas."
  Fiquei parado olhando para ele por alguns segundos, e notei que ele estava dando o sorriso galanteador de sempre. Virei meu rosto para o mar, e anui com a cabeça. Ele sorriu e completou:
  "Eu falo isso porque... Porque eu te amo Miguel."
  De primeira mão eu não tinha escutado direito, foi quando eu olhei na direção dele. Ele não estava mais sorrindo e se aproximava de mim, eu o empurrei. Ele caiu na areia e eu corri para aonde meu pai estava.
  Ele já estava arrumando as coisas para ir embora, quando me viu. Perguntou aonde eu tinha ido, e eu lhe disse que tinha visto um peixe-espada passando e me distrai. Andamos até o carro, e nenhum sinal de Matheus... No caminho, eu podia ouvir a voz dele repetindo palavra por palavra.
  Ele... me ama?!





Dia 13 - Flauta, incenso, lanternas e sushi . . .


  Em todos os dias da semana, mesmo que eu durma cedo, eu acabo acordando extremamente sonolento e mal consigo tomar meu café-da-manhã. Mas nas sextas-feiras isso é diferente, principalmente na que antecede o feriado do Carnaval. Apesar de eu saber que hoje o dia não seria nada fácil.
  Tenho escola, tenho que ir trabalhar na floricultura, e depois... Sushi Bar.
   O dia na escola não foi tão assustador quanto eu esperava. Alice e o seu clã não levantaram os olhos para a minha pessoa, mas pelo menos havia Francisco para me fazer companhia. 
  Pelo que parecia, Matheus tinha viajado antes mesmo do feriado começar. Não haveria como eu descobrir onde ele tinha ido, até porque as únicas pessoas que possivelmente sabiam não falavam mais comigo... Eu descobri que Alice era uma grande amiga dele desde a infância, mas uma confusão os fez nunca mais se falarem direito.
   Onde será que ele teria ido? Porque ele não falou nada? Espera, porque eu me importo com isso?!
   Na hora da saída, fui direto a um restaurante por quilo na rua ao lado para almoçar rapidamente e depois pegar o ônibus até a floricultura. Por algum motivo que desconheço, estava enjoado demais para comer, mas mesmo assim fiz a comida descer garganta abaixo.
  Chegando na floricultura, Ian já estava no balcão organizando um buquê de rosas, provavelmente uma encomenda. Ele estava organizando rosas brancas, juntamente com flores de sabugueiro e ramos de samambaia. Era impressionante o quanto ele tinha talento para aquilo, pois a mistura tinha ficado impressionantemente linda.
  Quando entrei no estabelecimento, a sineta da porta tocou e ele notou de imediato a minha presença, levantando a sua cabeça rapidamente. Um largo sorriso tomou conta de seu rosto e ele se dirigiu a mim, deixando o buquê por fazer no balcão. Um abraço mais forte que o normal me envolveu e por um momento eu me senti sufocado.
   Contentei-me em dar um boa-tarde entre tosses depois de permanecer alguns segundos sem respirar e fui correspondido com um riso baixo e um cafuné na cabeça. Com o rosto vermelho, andei apressadamente para trocar minhas roupas no fundo da loja.
  Por mais incrível que pareça, o dia-a-dia de uma floricultura não é tão emocionante assim. Mesmo que o seu colega de trabalho seja tão estranho quanto o Ian. Alguns buquês, entregas de bicicleta à lugares próximos, nada demais.
  Fechamos a loja no final da tarde, antes do sol se pôr e nos dirigimos ao restaurante japonês que ficava no final da rua. Chegando lá, ele havia dito que tinha reservado uma mesa ao lado do aquário e lá fomos nós. O lugar era pequeno, mas aconchegante. Uma música suave tocava ao fundo, e podia-se sentir um leve odor de incenso enquanto todo o ambiente era iluminado por lanternas japonesas.
  De repente, percebi que a namorada dele não havia chegado ainda e que nós não tínhamos nem ao menos a buscado. Quando perguntei onde ela estava, ele se limitou a sorrir e dizer:
  "Ela não existe, Miguel. Se eu te chamasse para cá jantar só comigo, eu sabia que você não viria."
  Eu estava de boca aberta, não entendendo mais nada. Parecia que o cenário ao meu redor estava sendo engolido por um buraco negro invisível. O ambiente parecia mais frio, mas logo senti um calor incontrolável se manifestando na pele do meu rosto. Minha cara devia estar extremamente vermelha, pois pude notar um sorriso de satisfação no rosto de Ian.
  A noite correu normalmente depois disso, eu simplesmente fingi que não tinha entendido. Rimos, conversamos, comemos. Foi tudo muito natural, apesar das atuais circunstâncias dissessem que não deveria ser assim.
  Saímos do restaurante quando o gerente nos disse que iriam fechar. Eu estava exausto, e minha barriga era feita de sushi e sashimi. Ele fez questão de me levar até a porta de minha casa, e fui presenteado novamente com outro abraço sufocante.
  Quando estava abrindo o portão com as minhas chaves, senti um puxão em meu pulso, e os degraus de pedra viraram calçada debaixo de meus pés em questão de segundos. Ele estava de pé na minha frente, ainda segurando meu braço. Mas sua cara não estava sorrindo como o de sempre, era um expressão séria.
  Não sei como aquilo aconteceu tão rápido, mas de um momento para o outro os meus lábios estavam ao encontro dos dele. Senti de imediato um calor que percorria todo o meu corpo rapidamente, foi quando ele me abraçou e saiu andando apressado em direção à sua casa.
  Fiquei parado por alguns momentos na rua, olhando para o nada. Tentei entender o que havia acontecido, mas era impossível. Entrei em casa e todos já haviam ido dormir, me joguei na cama e agarrei meus travesseiros.
  O que... Porque... Mas o que foi aquilo?!