Em todos os dias da semana, mesmo que eu durma cedo, eu acabo acordando extremamente sonolento e mal consigo tomar meu café-da-manhã. Mas nas sextas-feiras isso é diferente, principalmente na que antecede o feriado do Carnaval. Apesar de eu saber que hoje o dia não seria nada fácil.
Tenho escola, tenho que ir trabalhar na floricultura, e depois... Sushi Bar.
O dia na escola não foi tão assustador quanto eu esperava. Alice e o seu clã não levantaram os olhos para a minha pessoa, mas pelo menos havia Francisco para me fazer companhia.
Pelo que parecia, Matheus tinha viajado antes mesmo do feriado começar. Não haveria como eu descobrir onde ele tinha ido, até porque as únicas pessoas que possivelmente sabiam não falavam mais comigo... Eu descobri que Alice era uma grande amiga dele desde a infância, mas uma confusão os fez nunca mais se falarem direito.
Onde será que ele teria ido? Porque ele não falou nada? Espera, porque eu me importo com isso?!
Na hora da saída, fui direto a um restaurante por quilo na rua ao lado para almoçar rapidamente e depois pegar o ônibus até a floricultura. Por algum motivo que desconheço, estava enjoado demais para comer, mas mesmo assim fiz a comida descer garganta abaixo.
Chegando na floricultura, Ian já estava no balcão organizando um buquê de rosas, provavelmente uma encomenda. Ele estava organizando rosas brancas, juntamente com flores de sabugueiro e ramos de samambaia. Era impressionante o quanto ele tinha talento para aquilo, pois a mistura tinha ficado impressionantemente linda.
Quando entrei no estabelecimento, a sineta da porta tocou e ele notou de imediato a minha presença, levantando a sua cabeça rapidamente. Um largo sorriso tomou conta de seu rosto e ele se dirigiu a mim, deixando o buquê por fazer no balcão. Um abraço mais forte que o normal me envolveu e por um momento eu me senti sufocado.
Contentei-me em dar um boa-tarde entre tosses depois de permanecer alguns segundos sem respirar e fui correspondido com um riso baixo e um cafuné na cabeça. Com o rosto vermelho, andei apressadamente para trocar minhas roupas no fundo da loja.
Por mais incrível que pareça, o dia-a-dia de uma floricultura não é tão emocionante assim. Mesmo que o seu colega de trabalho seja tão estranho quanto o Ian. Alguns buquês, entregas de bicicleta à lugares próximos, nada demais.
Fechamos a loja no final da tarde, antes do sol se pôr e nos dirigimos ao restaurante japonês que ficava no final da rua. Chegando lá, ele havia dito que tinha reservado uma mesa ao lado do aquário e lá fomos nós. O lugar era pequeno, mas aconchegante. Uma música suave tocava ao fundo, e podia-se sentir um leve odor de incenso enquanto todo o ambiente era iluminado por lanternas japonesas.
De repente, percebi que a namorada dele não havia chegado ainda e que nós não tínhamos nem ao menos a buscado. Quando perguntei onde ela estava, ele se limitou a sorrir e dizer:
"Ela não existe, Miguel. Se eu te chamasse para cá jantar só comigo, eu sabia que você não viria."
Eu estava de boca aberta, não entendendo mais nada. Parecia que o cenário ao meu redor estava sendo engolido por um buraco negro invisível. O ambiente parecia mais frio, mas logo senti um calor incontrolável se manifestando na pele do meu rosto. Minha cara devia estar extremamente vermelha, pois pude notar um sorriso de satisfação no rosto de Ian.
A noite correu normalmente depois disso, eu simplesmente fingi que não tinha entendido. Rimos, conversamos, comemos. Foi tudo muito natural, apesar das atuais circunstâncias dissessem que não deveria ser assim.
Saímos do restaurante quando o gerente nos disse que iriam fechar. Eu estava exausto, e minha barriga era feita de sushi e sashimi. Ele fez questão de me levar até a porta de minha casa, e fui presenteado novamente com outro abraço sufocante.
Quando estava abrindo o portão com as minhas chaves, senti um puxão em meu pulso, e os degraus de pedra viraram calçada debaixo de meus pés em questão de segundos. Ele estava de pé na minha frente, ainda segurando meu braço. Mas sua cara não estava sorrindo como o de sempre, era um expressão séria.
Não sei como aquilo aconteceu tão rápido, mas de um momento para o outro os meus lábios estavam ao encontro dos dele. Senti de imediato um calor que percorria todo o meu corpo rapidamente, foi quando ele me abraçou e saiu andando apressado em direção à sua casa.
Fiquei parado por alguns momentos na rua, olhando para o nada. Tentei entender o que havia acontecido, mas era impossível. Entrei em casa e todos já haviam ido dormir, me joguei na cama e agarrei meus travesseiros.
O que... Porque... Mas o que foi aquilo?!

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