O dia de ontem não foi postado, pois ao meu ver não há nada de interessante: ajudar sua mãe a arrumar a casa, fazer os deveres de casa, assistir filmes de drama alugados pelo seu pai sentimental, e comer lasanha para depois ler até dormir.
Mas o dia de hoje foi diferente, e achei que ele merecia um post. Como algumas pessoas, meu pai decidiu abrir a loja dele após o horário de almoço. E é claro, esse dever sobrou para ninguém menos que eu mesmo.
Pelo que ouvi Ian havia viajado desde sábado, e eu iria ficar a tarde toda sozinho com toda a diversão de cuidar de flores para mim. O pólen normalmente me fazia espirrar, mas era tanto tempo convivendo com aquelas plantas que meu nariz sossegou. Nada, nenhum cliente...
Já era de se esperar não é? Quem em sã consciência vai comprar flores numa quarta-feira de cinzas?!
Quando eu já estava adormecendo no balcão, ouvi a sineta da porta tocar. Entrou então na loja uma garota. Ela era bonita, possuía grandes olhos verdes e uma cabeleira castanha que esvoaçava acompanhando o seu tímido caminhar por entre as flores. Não dirigiu nenhuma palavra a mim, até que se aproximou do ramo de cerejeira e perguntou-me o preço. Eu ainda estava perplexo com sua beleza, e por alguns segundos permaneci observando-a apontar para as flores sem ouvir nenhum som de sua boca.
Por fim, ela resolveu comprar a de pessegueiro por uma dica minha. Saiu sorrindo e satisfeita, agradecendo e acenando enquanto abria a porta da loja com o pé para aguentar os ramos com as duas mãos.
Ela era linda...
Quando estava fechando a loja, encontrei meu pai no caminho de casa. Ele segurava uma caixa com furos redondos, e parecia que estava sussurrava para ela. Tudo bem, meu pai tem muitas coisas estranhas, mas conversar com caixas na rua era novo. Me aproximei e ele disse que havia comprado numa feira perto dali, abriu a caixa e me mostrou o filhote de gato malhado que miava desesperadamente.
Fomos para casa juntos, e notei que o gato já possuía coleira, caixa de areia, pote de ração e tudo que um felino doméstico necessitava... Menos um nome. Decidi por fim chamá-lo de Mikage, nome de um personagem de um desenho que assisti fazia a tempo. Era um garoto que morreu para o seu amigo viver e renasceu em forma de animal doméstico para nunca se separar do mesmo.
Quem sabe ele também não vira meu amigo? Num mundo tão confuso desses, quem sabe um gato não seja mais companheiro...

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