Passada a cena shakesperiana no apartamento, Ian insistiu inconformavelmente para que eu passasse aquela noite com ele. Decidiu então ligar para a minha mãe, e com um pouco de charme e galanteio a minha (tão bondosa e inocente) mãe aceitou no ato.
Tomei a corajosa decisão de ajudar naquela bagunça e em desfazer as numerosas malas. Quando terminamos e toda a casa já estava totalmente arrumada, o que devia ser raro de se acontecer ali, a noite já havia caído e nós dois estavam igualmente mortos de fome. Como um solteiro clássico, a geladeira da casa estava mais vazia que a 1º de Março pós-Carnaval.
Fui a um mercado próximo e comprei os ingredientes essenciais para uma janta corrida: miojo e legumes. Tentei usar toda os dotes culinários herdados de meus ancestrais, mas de nada adiantou... Ainda era um miojo com legumes.
Depois de satisfeitos, vimos filme até bem tarde da noite (um dos motivos de eu não ter postado, culpem ele). Até eu começar a protestar afirmando que havia aula no dia seguinte. Como só havia um quarto e um só colchão, tive que compartilha-lo. Graças aos Céus, nada de incomum aconteceu aquela noite e até que ele se comportou bem. A não ser a parte que ele se mexe demais enquanto dorme.
A segunda-feira foi pacata. Corri para casa bem cedo e mesmo assim perdi o primeiro tempo de aula. Agora que toda a sala havia se tornado um campo de guerra, eu não tinha muito prazer em frequentar a minha escola. Os únicos seres humanos a quem eu dirigia alguma palavra eram: Francisco, os professores, e a mulher da cantina porque não tem como você conseguir comida sem falar.
Química, física, matemática e geografia. Acho que a coordenadora gosta de brincar ao escolher as matérias de segunda-feira. Não dormir naquele dia parecia mais difícil que os Doze Trabalhos de Herácles, mas bravamente eu o suportei sem pestanejar.
Tudo havia corrido bem até na hora da saída. Muitas pessoas ficavam encostadas no muro próximo ao portão, e Alice e sua "gangue" pareciam apreciar aquele hobby. Ao passar pelo portão, senti que diversos olhares me seguiam pelas costas e ao me virar percebi que um deles era de Alice.
Ela veio até mim, e com um sorriso amarelo estampado no rosto disse quase sussurrando:
"Soube que tem um novo amor, Takada... Espero que seus pais saibam que ele é maior de idade, seria bem triste se isso se espalhasse, não é?"
Saiu andando lentamente, olhando-me nos olhos até onde podia. Quando dei por mim, olhava para a calçada ainda não compreendendo o que havia acontecido. Percebi que todos me olhavam e comecei a andar apressado em direção à minha casa.
Como... Como ela soube? Eu não contei a ninguém! Ninguém pode saber disso... A não ser... Não, não pode ser ele.

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